Liberdade Para Sonhar
Muito se tem estudado e discutido a respeito da função dos sonhos. Este livro é, como disse, mais uma conversa sobre as coisas da vida, e gostaria de pensar o sonho de um modo diferente, com mais vivência e menos teoria. E sem qualquer pretensão de esgotar o assunto. Aliás, se há um tema inesgotável, esse é o do sonho. A razão é simples: o sonho está muito próximo do inconsciente – que é ilimitado! O que o sonho exige mais que teoria, é abertura para se sentir o que ele diz, liberdade e disposição para ir além. Melhor do que estudar o sonho é se deixar voar um pouco com ele.
Penso então que contar sonhos, brincar com eles, como faço ao longo deste livro, é uma boa forma de difundir alguns conceitos sobre o ato de sonhar como uma preciosa linguagem da vida. Não posso dizer que eu analiso os sonhos, pelo menos do jeito mais tradicional. Para mim, os sonhos, como as histórias, são canais para falarmos do que a vida está nos propondo.
Como os oráculos da Antiguidade, os pajés das nossas tribos ou os chamados ”apanhadores de sonhos” de algumas comunidades primitivas, também os psicólogos podem ajudar quem quer se tornar um bom sonhador. Independentemente das diferentes teorias, os sonhos continuam sendo fundamentais para a ampliação da consciência e a percepção de novas dimensões da realidade.
O problema é que fomos treinados durante séculos num modelo de percepção que nos limitou. O materialismo extremado de vários séculos nos deixou com medo de abrir nossa percepção para o invisível, para o espiritual, e até mesmo para o universo dos afetos e sentimentos. Gente séria tinha mais é que ser objetiva no sentido mais pobre do termo, ou seja, só se relacionar com objetos físicos. E foi assim que trancamos numa sala bem apertada nosso medo de bruxas, fadas, demônios, deuses e fantasias. Junto trancamos os sonhos, ou pelo menos vigiamos demais sua livre circulação.
Nos estreitos compartimentos da cabeça e da lógica, trancamos os sonhos, a afetividade e a intuição. Resultado: entre outros prejuízos, nosso pescoço, que integra a cabeça e o tronco, tornou-se vítima de grandes tensões musculares, pesadas e doloridas. O pescoço assumiu a função de interditar a ponte que liga a cabeça e o intelecto ao coração e á afetividade – e ao resto do corpo, é claro. Ficamos fragmentados, compartimentados, assim como toda nossa cultura. Alguns pedaços do corpo humano foram declarados “nobres”, a cabeça, o intelecto, principalmente. O coração e a afetividade ficam diminuídos e não se fala neles pra valer. Vencedor é o cara “cabeça”, o que detém o poder; coração é para bobão que se submete; ou para o louco, impulsivo, desvairado em suas paixões. A vitória do ser humano inteiro, capaz de integrar suas emoções e seu pensamento em gestos que expressem seus valores mais profundos, é coisa mais rara.
Texto extraído do livro “A Coragem de Crescer”, pág. 25 e 26 de Maria Melo – editora Record.
Maria Melo - 20/09/2009

