O Sábio Relutante

 

Lao Tzu nasceu no sul da china, província de Ch’u (hoje Hunan), há cerca de 2.500 anos – mais ou menos um século antes de Buda ver a luz numa alta montanha da Índia. Vivendo vida muito sossegada, Lao Tzu passou para a posteridade graças a um único feito de monta: a redação de um pequeno volume de reflexões espirituais chamado Tao Te Ching, desde então publicado em mais línguas do que qualquer outra obra, com exceção da Bíblia.

Esse notável autor nunca foi famoso durante sua longa existência, que segundo alguns registros teria ultrapassado largamente cem anos. Pouco sabemos sobre seu cotidiano, a não ser que no início da idade adulta mudou-se para Loyang e tornou-se curador dos arquivos imperiais da Casa Chou por pelo menos cinqüenta anos. Trabalhava na biblioteca do imperador, sempre reservado e tido por místico de grande sabedoria. Durante sua longa permanência nos arquivos imperiais não escreveu (pelo que sabemos) absolutamente nada nem permitiu a aproximação de seus discípulos.

Mas sabemos pelos escritos de Chuang Ttzu, o maior mestre taoísta depois de Lao Tzu, que o venerável filósofo Confúcio (nascido uma geração depois de Lao Tzu) certa feita encontrou-se com ele. E Lao Tzu teria dito áquele que logo se tornaria um eminente filósofo e moralista: “Livre-se do orgulho e da profusão de desejos, da complacência e da ambição excessiva. Isso não lhe fará bem nenhum. É só o que tenho a dizer-lhe”

Depois dessa famosa entrevista com o ancião, o jovem Confúcio confessou a seus discípulos: “Não sei como os dragões voam ao vento e em meio ás nuvens, alcançando as alturas do céu. Vi Lao Tzu hoje. Ele se parece com um dragão”.

Até onde podemos determinar, Lao Tzu levou uma vida singela e contemplativa durante a qual aprendeu, passo a passo, a praticar aquilo que chamou de “Caminho” – Tao, em chinês. Parece que, ao longo da vida, caminhou muito e falou pouco. Segundo Henry Wei em seu excelente livro Lao Tzu: The Guiding Light,

 

Lao Tzu pode, com justiça, ser considerado um inspirador imortal. Seus ensinamentos constituem um brilhante farol para guiar o espírito humano para a realização suprema. ...Levou vida longa, sossegada e estudiosa para depois desvanecer-se do cenário humano e deixar após si uma parcela compacta de sabedoria sublime em forma de gloriosos poemas. ...Não era exatamente um eremita ou recluso; apenas amava a contemplação. Preferia a penumbra e o silêncio da biblioteca, devotando-se ao cultivo interior e á busca da verdade, vivendo serenamente a seu gosto.

 

O império a que Lao Tzu servia, dos Chou, começava a decair. Por fim o ancião fartou-se da cidade e resolveu ir embora. Simplesmente começou a caminhar para oeste, rumo a um distante desfiladeiro. Chegando á fronteira do império Chou, foi detido pelo guarda alfandegário, um homem chamado Yin Hsi, que lhe perguntou: “Antes de deixares para sempre o mundo, poderias escrever algumas palavras em benefício de nosso esclarecimento?”

Lao Tzu concordou, é claro, pois antes de atravessar os portões e desaparecer em terras estrangeiras, para levar não se sabe qual tipo de existência, deixou nas mãos de Yin Hsi uma pequena coletânea de 81 poemas curtos e reflexões, totalizando apenas umas cinco mil palavras.

O taoísmo, de um modo geral, recebeu um grande impulso dos vigorosos ensinamentos de Lao Tzu. Ele era um verdadeiro pensador revolucionário que desafiou ás claras o statu quo e enfatizou as humildes qualidades humanas a que se possa aspirar; mediu a grandeza, não pela fortuna ou pelos feitos, mas pela integridade pessoal e harmonia interior. Das lições do Tão Te Ching, deduz-se que ele defendia os líderes preocupados com o bem estar do povo e condenava veemente a guerra, a violência, a corrupção no setor público, os impostos exorbitantes e toda interferência indevida nos assuntos da comunidade. Lao Tzu postulou uma liderança ideal, invisível e esclarecida, que conhece em primeira mão a senda espiritual que conduz ao bom governo. Desde então, estadistas inteligentes e líderes de todas as áreas têm valorizado seus preceitos e orientações.

 

 

Texto extraído do livro “Sete Mestres um Caminho” de John Selby – editora Pensamento

 

 

 

 

John Selby - 05/10/2009