Por uma ecologia pessoal

 

Ao falar de autocura, sei que toco num tema polêmico. Não vou tentar esgotá-lo aqui, apenas colocar uma pitada dele no nosso bolo; bem que vale a pena. Podemos pensar em autocura como um processo de restabelecimento do equilíbrio do organismo, da unidade pessoal, da integração ferida ou mesmo quebrada nos embates da vida. Nesse sentido, autocura é reencontrar os caminhos que conduzem á revitalização. Tais cominhos significam melhor qualidade de troca com o meio, contatos mais gratificantes consigo mesmo, com os outros e com a natureza. Para retomar uma direção perdida, primeiro temos que ser capazes de agüentar perceber que nos perdemos, nos negamos a encarar os sentimentos difíceis, dos quais fugimos. Mesmo a doença, nesse contexto, tem uma função: ela vem denunciar a perda de contato com nossas emoções mais profundas. Recuperar a vitalidade é mudar o olhar e focar a vida sob a ótica da saúde, da coragem de sentir sem medo e estar inteiro em si mesmo e no mundo. Sem esse olhar claro, não seremos eficientes para nossas satisfações mais profundas.

 

Sem esse foco corajoso, as pessoas continuam a buscar compensações, quebra-galhos que só jogam mais poeira nos olhos e escondem a dor negada ou a alegria não vivida, sonegada. É quando nos embriagamos nos mais diversos vícios. Eufóricos, sentimo-nos poderosos em nossas fantasias ou, deprimidos, cultivamos a ilusão de fugir da vida, encolhidos em algum cantinho interior, abandonando e traindo a nós mesmos. Engraçado como essas escolhas equivocadas são vendidas diariamente na mídia, que vive mostrando pessoas perfeitas, bonitas, jovens, ricas, bem-amadas e bem-sucedidas. Vidas perfeitas, inatingíveis, que nos deixam ainda mais longe de todos e de tudo, mais perdidos. E talvez isso nos leva a acionar mais compensações, mais negações, mais euforia, mais depressão, num caminho sem saída. Para a alegria, diga-se, dos fabricantes de antidepressivos, dos traficantes de drogas, das indústrias de bebidas alcoólicas. Todos os fabricantes de aditivos existenciais vão aumentar suas vendas loucamente – á medida que nós vamos ficando cada vez mais loucos.

 

Como sair disso? Bem, isolado ninguém sobrevive. Como sistemas vivos, somos como uma planta que, arrancada do solo, sem trocas constantes com a terra e o sol, começa a morrer, a negar sua contribuição ao ciclo da vida em torno dela. Às vezes perdemos vitalidade e adoecemos porque a terra onde estamos plantados se encontra pobre, desértica, sem condições para uma vida saudável, de troca vitalizantes. Ela não recebe o que precisamos dar para expressar nosso ser, nem tem a oferecer de que carecemos para continuar evoluindo, nos organizando em estruturas cada vez mais ricas de possibilidades de respostas. Esse chão árido de afetos e idéias pode ser um casamento, um trabalho, um grupo social... Enfim, nossos campos de vida. Precisamos ver bem o que nos cerca. E fazer escolhas na direção da saúde. Se, de um lado, a vida é um eterno fluir que muitas vezes nos assusta, pela fugacidade de tudo, de outro revela que somos também um mar de possibilidades, e que nossas escolhas é que escrevem nossa história. Uma história que vai marcando inclusive o nosso corpo, porque posturas físicas são ao mesmo tempo posturas de vida, refletem nossas atitudes e posicionamentos. Assim, física e espiritualmente, nós é que, a cada dia, optamos pela doença ou pela saúde.

 

 

Texto extraído do livro “A Coragem de Crescer” de Maria Melo – editora Record

 

 

 

Maria Melo - 06/10/2009