Entrevista com Amit Goswami – Parte II

 

 

Mônica Teixeira: Dr. Goswami, é possível medir esse fenômeno do qual o senhor está falando? Porque a física é sobre medir, né?

 

Amit Goswami: Obrigado pela pergunta. Sim, isso é uma conseqüência da teoria da consciência como base de todo o ser, que escolhe, dentre as possibilidades quânticas, o evento real da experiência. Dessa forma, essa consciência deve ser não-local. Devemos ter uma interconectividade não-local. E, portanto, duas pessoas deveriam ser capazes de se comunicar não-localmente sem a troca de nenhum sinal. Mas, para ser crível, é melhor que um fenômeno cerebral seja transferido para outro cérebro. E, de fato, Jacobo Grinberg, um neurofisiologista da Universidade do México, verificou justamente isto, colocando duas pessoas para meditar juntas com a intenção de se comunicarem diretamente, sem a troca de sinais. E, realmente, após um breve tempo de meditação, separados em gaiolas de Faraday independentes – câmaras eletromagneticamente impermeáveis – e com os cérebros conectados a máquinas de eletroencefalograma [EEG], foram mostrados flashes de luz para apenas um dos sujeitos. Então, o cérebro desse sujeito tem uma série de formas de atividade elétrica em resposta aos flashes.

 

Mônica Teixeira: E essa atividade elétrica foi medida?

 

Amit Goswami: Ela pode ser medida pela máquina de eletroencefalograma conectada ao cérebro, o que normalmente se chama de onda cerebral e disso um potencial evocado é extraído. O que impressiona – e desafia qualquer tipo de explicação local do senso comum – é que o EEG conectado ao cérebro do outro sujeito não-receptor de nenhum flash de luz também revelou um potencial, virtualmente igual em intensidade e força. E até mesmo a superposição das fases foi de 71% em um caso particular, 75% em outro caso, 67% em outro ainda... Em suma, foi sempre substancial. A conclusão do experimento é que a atividade elétrica de um cérebro se transfere para outro cérebro sem conexão ou contato elétrico nenhum.

 

Mônica Teixeira: E há outras medidas desse fenômeno, há outros cientistas trabalhando nisso, Dr. Goswami?

 

Amit Goswami: Depois que Jacobo Grinberg realizou isso na Universidade do México em 1993, 94 [refere-se aos resultados publicados  em 1994 por Grinberg na revista Physical Essays, que teriam demonstrado a realidade da comunicação à distância, “não-local”, entre cérebros humanos. No final desse ano, o pesquisador simplesmente desapareceu], Peter Fenwick [neuropsiquiatra e membro do Royal College of Psychiatrists, associação de psiquiatras britânicos e irlandeses. Tem buscado encontrar as bases neurofisiológicas subjacentes às experiências místicas] verificou os mesmos resultados com procedimentos ligeiramente diferentes em seu laboratório em Londres. E, desde então, foram realizados outros dois experimentos, um por Waterman, do qual não conheço os detalhes, e outro por Leanna Standish [médica naturopática e acupunturista especializada em complementar o tratamento de portadores de câncer, aids, hepatite e doenças neurológicas. Como Grinberg, fez um experimento em que, após uma breve meditação conjunta, duas pessoas eram colocadas em salas separadas. Caracterizando o que Standish chamou de “sinalização neural à distância”, mudanças na atividade cerebral da pessoa que recebe os estímulos e envia os sinais teriam se transmitido ao parceiro que recebe esses sinais] e seu grupo na Universidade de Bastyr, em Seattle. Ambos verificaram a mesma coisa. Agora, portanto, quatro experimentos independentes mostraram que a transferência de informação de cérebro a cérebro, sem nenhuma conexão eletromagnética, é, sim, possível e mensurável, demonstrando a não-localidade da consciência. Porque isso é explicado apenas se existir uma conexão não-local. Uma conexão pelo quê? Evidentemente pela consciência, pois somente a consciência pode escolher, dentre as possibilidades cerebrais, o evento real no cérebro do segundo observador, que é semelhante à experiência do primeiro observador.

 

Maurício Tuffani: Eu tenho encontrado... não, imagino que essas idéias estejam enfrentando uma certa dificuldade com relação ao conservadorismo de grande parte da comunidade científica. Eu acho muito importante que haja debates sobre diferentes concepções da ciência, mas não me parece que esteja havendo um debate efetivo sobre esse tipo de idéias. Eu, por exemplo, fiz um levantamento sobre os seus trabalhos no Web of Science, que é um banco de dados do instituto para informação científica sediado na Filadélfia, nos Estados Unidos. Ele aponta 21 trabalhos indexados, publicados pelo senhor até 1986, janeiro de 1986. E o senhor teve uma atuação científica, assim, bem tradicional, bem convencional e de lá para cá o senhor publicou 9 artigos sobre esses temas, 12 artigos, perdão, 9. Esses 9 artigos eles tiveram apenas 46 citações em todo o mundo, muitas delas feitas pelo senhor próprio e por pessoas que são ligadas ao senhor. Quer dizer, enfim, não se trata de um assunto com repercussão na comunidade científica. A gente não vê um debate e me parece que, lendo os seus livros... os pontos que seriam polêmicos não são devidamente explorados em seus livros. A ciência, ela evolui em função de debates, em função de controvérsias, né? Examinando detalhadamente suas obras dá para perceber que, apesar de suas teses heterodoxas, pontos polêmicos – por exemplo, o [Albert] Einstein, o senhor cita muito o Einstein. Mas ele gastou as 3 últimas décadas da sua vida combatendo a mecânica quântica, [fazendo] isso baseado numa compreensão que ele tinha do universo e de Deus particularmente [a posição de Einstein, contrária sobretudo ao princípio da incerteza de Heisenberg, encontra sua síntese na conhecida frase do físico: “Deus não joga dados com o universo”. O físico também fazia questão de dizer que não acreditava num Deus pessoal, construído à imagem e semelhança do homem, que influencia diretamente, julga ou pune as ações de suas criaturas. Ele dizia que sua religião consistia numa humilde admiração do espírito infinitamente superior que se revela no pouco que compreendemos sobre a realidade] . Esse é um ponto que o senhor não explora muito, assim como tantos outros. Isto não incomoda o senhor, o fato de não haver esse devido confronto de idéias na sua obra?

 

Amit Goswami: Eu agradeço a pergunta. Infelizmente, o confronto não é o estilo recomendado pela visão de mundo que tenho... e a visão de mundo que explica a física quântica e que agora parece explicar muitos fenômenos inexplicáveis e que nem mesmo podem ser abordados pela visão de mundo materialista. Essa é uma abordagem muito amigável, inclusiva. Eu não acho que bater de frente em debates com cientistas específicos fará alguma coisa a favor da nossa causa de mudança de paradigma. O paradigma será mudado a partir do peso de evidências em favor dele. Atualmente, o que nos ajuda muito é que temos aplicações práticas na área da medicina, da psicologia... Infelizmente, eu acho que você não consultou quantas vezes a minha obra é citada em trabalhos de psicólogos, de profissionais da saúde e de outros, ainda, não-pertencentes às ciências puras. Sim, é verdade que aqueles das ciências puras, os físicos, os químicos e até mesmo os biólogos, preferem oferecer a chamada “negligência benigna”. Eles não se envolvem com essa questão, pois fazendo isso acabarão dando maior publicidade para mim, algo considerado por eles prejudicial à sua causa. Então, deixá-los viver do modo deles e nós do nosso é agora a melhor abordagem. Ciência alternativa. Estamos desenvolvendo um paradigma de uma ciência alternativa, estamos desenvolvendo respostas alternativas às questões que a ciência comum – a ciência materialista – não consegue tratar. Estamos oferecendo às pessoas respostas viáveis, como a validade da medicina alternativa, da psicologia transpessoal, da espiritualidade e do yoga. Deixemos que esses usos se tornem um lugar comum entre as pessoas e que possam servi-las. A ciência, em última instância, serve às pessoas. Se as pessoas são servidas, passará a haver um movimento popular espontâneo, partindo das bases, no qual as pessoas se perguntarão “que ciência preferimos?” Qual delas serve à nossa vida cotidiana e qual lida cada vez mais com questões esotéricas como “quantos anjos podem dançar sobre um alfinete”. A física das partículas elementares não foge muito disso. Quem se importa com o que acontece a temperaturas extremamente altas, que raramente verificamos, mesmo na totalidade do universo, com exceção dos primeiros poucos micro... microssegundos do universo? Mas a gente consome mais tempo e recursos nesse tipo de questões do que pensando em como nos curar quando somos portadores de um câncer incurável. Essas são as questões com as quais a nova ciência pode lidar. E é muito mais importante se preocupar em responder as questões importantes para as pessoas do que entrar em debates inúteis com outros cientistas. Eles são apenas pessoas normais, com seus preconceitos, como eu tenho os meus. Essa não é a melhor forma para fazer ciência. Você desenvolve teorias e essas são testadas em experimentos laboratoriais, como aqueles já descritos por mim. Essas coisas falam muito mais pela nova ciência e atualmente as evidências estão aumentando como nunca. Temos novas teorias da evolução, que funcionam e explicam as lacunas fósseis. Temos a cura quântica e o fenômeno que Deepak Chopra [(1946-) médico especialista em curas alternativas. Autor de mais de 25 livros, traduzidos em 35 línguas, tais como A cura quântica, As sete leis espirituais do sucesso e Criando saúde] descreveu. Existem evidências enormes de que ocorre a cura quântica, os saltos quânticos, nos quais a consciência opta pela saúde no lugar da morte.

 

Heródoto Barbeiro: Nós vamos fazer um intervalo nessa nossa conversa com o doutor Amit Goswami. Nós voltamos daqui a pouquinho e hoje nós queremos destacar na platéia Adriano Fromer Piazi, que é diretor editorial da Editora Aleph, a Tanimara Soares, que é física, e também a Lígia Regina de Azevedo Ruiz, que é farmacêutica homeopata. Nós voltamos já, já.

 

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Amit Goswami - 25/10/2009